sexta-feira, 28 de março de 2025

Capitulo II - O Herdeiro das Sombras e das Luzes

O nome dele era Vicente. Mas no Palácio, ninguém se dava ao trabalho de chamá-lo assim.

Era só “V”.
Uma letra.
Um sussurro.
Um risco de faca num azulejo sujo.

Cresceu entre as colunas descascadas de mármore falso e os tapetes puídos onde se jogava baralho com a alma. Ouviu juras de amor eterno feitas com bafo de uísque e promessas de revolução que morriam sempre no dia seguinte. Era o menino que espiava por entre as frestas, que ouvia tudo, que falava pouco. Quando falava, cada palavra parecia ter passado antes por um tribunal secreto dentro dele.




Era mulato de olhos verdes. Um paradoxo que deixava os adultos desconcertados. A senzala e a sala de jantar disputando território nos seus traços. E no olhar… no olhar morava algo que ninguém sabia nomear: inteligência demais pra idade, tristeza demais pra um rosto tão jovem, e uma raiva contida que não sabia ainda se queria vingança ou fuga.

Diziam que era filho de uma das meninas do Palácio. Mas ninguém nunca soube — ou nunca quis dizer.
Uns falavam de uma prostituta que fugiu com um embaixador argentino. Outros diziam que ela tinha se matado em Paraty, num fim de tarde que cheirava a maresia e solidão. Mas a verdade, como sempre,  estava deitada em silêncio dentro de alguma das mais antigas. Bia Morena, talvez.

Às vezes ela olhava pra Vicente como quem lembra de um nome que não pode mais pronunciar. Ajeitava o lenço no pescoço, soltava um suspiro seco e mudava de assunto. Nunca disse. Mas o silêncio dela gritava como mãe que guarda segredos por instinto, não por covardia.

Vicente cresceu com três mães — nenhuma de sangue, todas de pele.

Bia era a pedra. Negra retinta, riso raro, mãos de lavadeira e peito de quilombo. Tinha a força das que nunca se renderam.Foi com ela que Vicente aprendeu a engolir a língua quando o mundo pedia sangue.
Com ela ele entendeu que olhar nos olhos é mais perigoso que sacar uma arma.

Zazá do Catete era o ar. Magricela, sempre com um lenço azul no pescoço e batom borrado pela metade do dia. Falava como se estivesse cantando um samba que ninguém mais lembrava a letra. Contava histórias de rádio, de guerra, de amor em pensões baratas. Foi ela quem ensinou Vicente a escutar o que se diz com os olhos — e o que não se diz de jeito nenhum.

Odete era o osso. Andava como professora, falava como militante e amava como só as que apanharam sabem amar. Repartia o pão e o cansaço em partes iguais. Dava bronca como quem reza.
E rezava como quem ameaça. Chorava baixinho quando via Vicente dormindo com os pés sujos e a respiração pesada.



“Menino meu não abaixa a cabeça pra branco engravatado. Nem pra general. Só pra sua mãe Iansã.”

Foi amamentado por Bia, alfabetizado por Zazá, educado com chineladas e cafunés por Odete. Cada uma deixou nele um pedaço. Mas nenhuma conseguiu impedir que ele carregasse no olhar o reflexo de outra. De uma que já não estava ali.

De Sabrina. Porque o que ninguém dizia — mas algumas sentiam — é que Vicente tinha algo dela. Não o sangue, embora talvez tivesse. Mas o brilho.

Aquela coisa que não se ensina. Aquela luz incômoda que vem de quem já nasceu com uma ferida ancestral no peito. O brilho de quem sabe sorrir pra um inimigo e fazer com que ele se sinta honrado por morrer pelas costas. O brilho de quem sabe que o mundo é um bordel com cortinas de igreja.

Vicente tinha isso. E tinha também a raiva muda dos que não sabem quem são. Uma raiva que não grita 
ela espera.

Ele sabia jogar pôquer antes de aprender a tabuada. Sabia reconhecer políticos canalhas pelo perfume e generais perigosos pela mão trêmula. Aprendeu capoeira só de ver, e aos doze já andava com uma navalha curta no bolso e um lenço de seda vinho no pescoço — como quem carrega uma bandeira de guerra amarrada na jugular.

Não era vaidade.
Era proteção.
Era disfarce.
Era mensagem.

E ali, entre corredores manchados e salas com cheiro de esperma antigo e perfume francês barato,
Vicente cresceu.

Meio filho.
Meio espião.
Inteiramente lenda em construção.

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