sexta-feira, 28 de março de 2025

Bem-vindos ao Palácio

 Anos 80 no Rio de Janeiro.

O processo de abertura democrática a pleno vapor, e uma onda de transformações alardeava a chegada da tão sonhada Era de Aquário, que prometia libertar os corpos, dissolver os impérios e fazer do amor uma nova ordem política.

Os 80 no Rio eram como os 60 foram para o resto do mundo. Com os militares cedendo pouco a pouco e o povo indo às ruas em busca de liberdade e em busca de felicidade.

Talvez tenha sido aquela a época em que a cidade atingiu seu auge. Talvez, nesses anos de abertura, como num alvorecer de verão depois de uma noite abafada, os astros tenham favorecido aqueles que lutavam para trazer à realidade as utopias que povoavam o imaginário de jovens idealistas.

Mesmo onde a vida era feia, mesmo tão perto da boca do lixo, a esperança florescia com a chegada de uma nova era. Um novo Aeon. E é nesse Rio de Janeiro que começa a nossa história.

Sabrina era a mais famosa putinha do Rio nos anos 80.
Agradava tanto aos homens da alta sociedade que eles montaram um pequeno palacete para ela.

E lá, ela edificou seu mundo.
No palácio, ela era a rainha.



Mas o Palácio não era um bordel qualquer.Na verdade, não era um bordel de forma alguma. Era a casa de Sabrina — um grande imóvel em Laranjeiras com doze quartos bem distribuídos. 

O palácio, como ela gostava de chamar, tinha sido reformado para abrigar um cassino clandestino que funcionou por décadas. Até que, com os ventos políticos mudando, algum milico nostálgico ou endividado se lembrou do velho sobrado e o desocupou às pressas, amparado pela Lei de Segurança Nacional e o AI-5.



Depois foram quase duas décadas de portas fechadas até que o mesmo milico resolveu presentear Sabrina com o sobrado. Ela, sempre grata, soube agradar com maestria aquele velho general que, na maioria das vezes, contentava-se em se perder entre as coxas da sardenta, como um animal manso voltando ao cio.

Com o tempo, o general — já curvado pelos anos — cedeu.
Permitiu que ela recebesse visitas. Preocupado com o futuro da rapariga, fazia questão de aparecer com frequência, dando dura em qualquer um que ousasse frequentar a cama de Sabrina como se fosse uma posse pública. Parecia uma espécie de pai ciumento.

Logo, Sabrina deu abrigo a uma amiga.
Depois outra.
Até que quase uma dúzia de mulheres vivia no sobrado.

Só podiam frequentar o Palácio aqueles convidados pelas meninas — ou homens com dinheiro e posição. O jogo voltava à casa. Mas sob olhares distraídos, ninguém suspeitava da natureza exata do que se fazia ali.

Sempre havia uma viatura estacionada na porta, fazendo a segurança das meninas. E, claro, não demorou para que os próprios policiais passassem a frequentar os quartos e os salões. O tempo passou. E os patronos, aos poucos, transformaram o velho sobrado em um verdadeiro palácio.

As meninas, sob a tutela de Sabrina, mantinham-se belas e dispostas. Era recomendado que só subissem com quem realmente tivessem vontade. Nada era cobrado — desde que o garanhão fosse amigo da casa, um de seus patronos. Aquilo se tornou um clube privé. Festas eram celebradas sem que os convidados sequer soubessem que estavam em uma casa de tolerância.

Era um lugar de muita classe, o Palácio.

Sabrina era dessas pessoas que, mesmo chafurdando na lama, nunca perdem o brilho no olhar.
E como os olhos de Sabrina brilhavam... Tinha um jeito meigo de falar, ainda arrastando o falso sotaque francês que herdara de sua antiga protetora, Madame Désirée. Sabrina era baixinha, tinha cerca de um metro e sessenta. Ruiva, sardenta, com dois olhos verdes que mais pareciam pedaços de céu encravados em sua órbita.

O corpo? Delineado como o de uma adolescente. Mas era o jeito de menina sapeca e cheia de sonhos que mais atraía.

Sabrina tinha um ar leve, como quem se recusa a olhar pro lado podre da vida. E essa qualidade fazia dela um tesouro raro, entre tantas joias que esmorecem. Tanto que seus clientes — ou melhor, seus devotos — fizeram questão de contribuir com uma quantia generosa para reformar o Palácio. Naquele templo, aquela mulher era uma redoma. A esperança viva de que a rosa mais bela do Rio fosse protegida do longo inverno.

E por um tempo… foi bom.
O plano funcionou.
Mas a vida é cheia de amarguras.

Dizem que o anjo da morte se apaixonou por Sabrina também.
E a levou consigo.

Mas estou me adiantando.

Ainda vamos contar as histórias de Sabrina e do Palácio. Por ora, vamos focar em seus filhos. Como todo bordel — mesmo que esse jamais aceitasse ser chamado assim — sempre nascem os filhos das putas que ali crescem.

Mas o Palácio não era comum. Era um clube de cavalheiros. Onde o jogo era tolerado pelas autoridades — e mais que isso: era jogado por elas.

Ali se jogava pôquer, blackjack, e costuravam-se acordos que decidiam a política da cidade.  E Sabrina… Sabrina participava dessas conversas. Sabia onde se metia. Sabia barganhar. Aqueles que subestimam o poder de uma mulher em disputa… costumam sair derrotados. Foi assim que se montou o palco para os nossos personagens principais.

O Palácio, mesmo com sua rainha já consumida pelo inverno, permanece de pé.

Na mesma rua de Laranjeiras. Com filhos e filhas que mantêm sua memória acesa como um fogo antigo, alimentado por histórias que só se contam depois do segundo uísque.

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