Anos 80 no Rio de Janeiro.
O processo de abertura democrática a pleno vapor, e uma onda de transformações alardeava a chegada da tão sonhada Era de Aquário, que prometia libertar os corpos, dissolver os impérios e fazer do amor uma nova ordem política.
Os 80 no Rio eram como os 60 foram para o resto do mundo. Com os militares cedendo pouco a pouco e o povo indo às ruas em busca de liberdade e em busca de felicidade.
Talvez tenha sido aquela a época em que a cidade atingiu seu auge. Talvez, nesses anos de abertura, como num alvorecer de verão depois de uma noite abafada, os astros tenham favorecido aqueles que lutavam para trazer à realidade as utopias que povoavam o imaginário de jovens idealistas.
Mesmo onde a vida era feia, mesmo tão perto da boca do lixo, a esperança florescia com a chegada de uma nova era. Um novo Aeon. E é nesse Rio de Janeiro que começa a nossa história.
E lá, ela edificou seu mundo.
No palácio, ela era a rainha.
Depois foram quase duas décadas de portas fechadas até que o mesmo milico resolveu presentear Sabrina com o sobrado. Ela, sempre grata, soube agradar com maestria aquele velho general que, na maioria das vezes, contentava-se em se perder entre as coxas da sardenta, como um animal manso voltando ao cio.
Só podiam frequentar o Palácio aqueles convidados pelas meninas — ou homens com dinheiro e posição. O jogo voltava à casa. Mas sob olhares distraídos, ninguém suspeitava da natureza exata do que se fazia ali.
Sempre havia uma viatura estacionada na porta, fazendo a segurança das meninas. E, claro, não demorou para que os próprios policiais passassem a frequentar os quartos e os salões. O tempo passou. E os patronos, aos poucos, transformaram o velho sobrado em um verdadeiro palácio.
As meninas, sob a tutela de Sabrina, mantinham-se belas e dispostas. Era recomendado que só subissem com quem realmente tivessem vontade. Nada era cobrado — desde que o garanhão fosse amigo da casa, um de seus patronos. Aquilo se tornou um clube privé. Festas eram celebradas sem que os convidados sequer soubessem que estavam em uma casa de tolerância.
Era um lugar de muita classe, o Palácio.
Sabrina era dessas pessoas que, mesmo chafurdando na lama, nunca perdem o brilho no olhar.
E como os olhos de Sabrina brilhavam... Tinha um jeito meigo de falar, ainda arrastando o falso sotaque francês que herdara de sua antiga protetora, Madame Désirée. Sabrina era baixinha, tinha cerca de um metro e sessenta. Ruiva, sardenta, com dois olhos verdes que mais pareciam pedaços de céu encravados em sua órbita.
Sabrina tinha um ar leve, como quem se recusa a olhar pro lado podre da vida. E essa qualidade fazia dela um tesouro raro, entre tantas joias que esmorecem. Tanto que seus clientes — ou melhor, seus devotos — fizeram questão de contribuir com uma quantia generosa para reformar o Palácio. Naquele templo, aquela mulher era uma redoma. A esperança viva de que a rosa mais bela do Rio fosse protegida do longo inverno.
Mas estou me adiantando.
Ainda vamos contar as histórias de Sabrina e do Palácio. Por ora, vamos focar em seus filhos. Como todo bordel — mesmo que esse jamais aceitasse ser chamado assim — sempre nascem os filhos das putas que ali crescem.


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