sexta-feira, 28 de março de 2025

Capítulo II – Parte II - O Velho e o Verbo

Ele apareceu numa terça-feira de garoa. Daquelas em que o céu parece estar desistindo de chover, mas não consegue parar de chorar. Trazia uma bengala torta, um terno de verão ultrapassado e olhos de quem já não esperava mais nada, mas ainda via tudo.

Chamava-se Diógenes. Mas no Palácio, ninguém ousava chamá-lo. Ele simplesmente estava.

Sentava-se sempre no mesmo sofá de couro da sala da frente — de onde se via a escadaria, metade da penumbra e um pedaço de cada história que se escrevia no andar de cima. Não bebia. Não pagava. Só pedia um café sem açúcar e deixava no ar o cheiro de outro tempo.

Era ex-cronista político. Assinava colunas que derrubavam secretários e levantavam delírios. Escreveu contra o AI-5 usando o pseudônimo “Mulher de Ministro” — e por isso quase perdeu os dedos.

Dizem que foi apaixonado por Sabrina. Daqueles amores que não tocam, não encostam, não pedem nada. Só escrevem. Escreveu sobre ela em crônicas disfarçadas, colunas mascaradas, pequenos contos que fingiam ser ficção. Sabrina aparecia como atriz, santa, militante, vampira, dançarina de cabaré, filha de seu tempo.

Mas nunca com seu nome. E talvez nunca soubesse. Ou fingisse não saber. Ou soubesse demais pra dizer qualquer coisa. Quando Vicente começou a crescer — a olhar demais, a ouvir com excesso, a parecer ela sem querer parecer — Diógenes entendeu.

O tempo tinha feito um laço. E o Palácio, como todo lugar assombrado por sua própria glória, estava pronto para um novo ciclo. Vicente seria o novo portador das palavras. O cronista sem papel. O escriba da lama e do veludo.

Tentou ensinar leitura. Trouxe livros. Mapas. Revistas velhas. Mas Vicente se perdia nas letras como quem tenta atravessar um pântano de olhos vendados. Troca letra. Engole sílaba. Cansa fácil. 

Um dia, jogou um almanque no chão com raiva. Rasgou a capa. Gritou com o velho:

— “As palavras não querem entrar, porra!”



Diógenes não respondeu. Só ficou olhando. Na semana seguinte, Vicente começou a segui-lo.

Descalço, camisa suada, olhar faminto. Ia atrás do velho pelas calçadas do centro. Parava na esquina do jornal. Esperava. Mas nunca o deixavam entrar.

— “Moleque de onde?”
— “Cadê responsável?”
— “Sai daqui, vai pedir esmola em outro canto.”

Vicente virava as costas sem abaixar a cabeça. Guardava o que via. O que ouvia. E o que não deixavam ele ver.

Numa tarde, sumiu por duas horas. Voltou com uniforme de escola particular. Camisa branca. Calça cinza. Sapato engraxado. Olhos em brasa. Ninguém perguntou de onde veio. Mas todos sabiam que não foi dado.

A história do roubo —
do menino Galego,
do banheiro do clube,
da troca de fardas e da surra futura —
essa história ainda será contada.

Por ora, o que importa é que naquele dia, Vicente cruzou a porta da redação. E entrou.

Não leu.
Ouviu.

Ficava quieto nos corredores, sentado na beirada da sala de revisão. Ouvia vozes. Códigos. Gírias de redação. Palavrões, histórias, brigas. E ali ele entendeu:

A palavra não é só escrita.
A palavra é saliva.
É ritmo.
É faca disfarçada de flor.

Aprendeu que escutar é mais letal que interromper. Que o tom importa mais que o substantivo. Que história não mora no papel. Mora na boca.

E começou a contar. Contava pras meninas enquanto elas penteavam os cabelos. Inventava diálogos na hora do banho. Imitava políticos bêbados. Fazia versos escondido no espelho do corredor. Sussurrava microcontos nos ouvidos das putas como se fossem bênçãos ou maldições.

— “A história não mora nos livros, Bia. Mora na saliva. E eu tenho muita.”

Ele não sabia, mas estava virando vulto. Deixando de ser menino. Ficando verbo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Capítulo II — Parte III: A Jogada

O salão do térreo cheirava a madeira encerada, uísque caro e corpo suado. As luzes eram vermelhas, quentes como sangue fresco. Velas meio de...