O salão do térreo cheirava a madeira encerada, uísque caro e corpo suado. As luzes eram vermelhas, quentes como sangue fresco. Velas meio derretidas, abajures de vidro tingido, cortinas pesadas com cheiro de naftalina e pecado. Tudo ali parecia respirar junto, como um bicho de veludo prestes a engolir os incautos.
No canto, o toca-discos rangia Miles Davis num lamento de sax que soava como um pedido de desculpa feito tarde demais. A música se arrastava pelo carpete, abraçava as pernas das cadeiras, subia pelos tornozelos das putas. Era noite de jogo. Vicente estava encostado na parede, um cigarro apagado nos dedos e a camisa branca aberta no peito.
Observava como quem se prepara pra
fazer história com as mãos sujas e o coração calado. Foi então que ela entrou.
Lola.
Veio de Niterói com uma mala de couro velha, um vestido que grudava demais e um olhar que parecia ter lido todos os segredos do Palácio antes mesmo de cruzar a porta. Tinha o corpo pequeno, os olhos grandes e escuros, uma voz baixa de quem fala pouco pra não tremer. Havia nela um tipo de beleza que confunde:
Você não sabe se quer proteger ou profanar. Vicente perguntou sem tirar os olhos:
— “Quem é ela?”
Bia Morena respondeu com a boca torta:
— “Nova. Mas não é pra ti, garoto. Essa veio com destino traçado.”
No Palácio, “destino traçado” queria dizer:
alguém
importante já escolheu.
Dessa vez, era doutor Roberto. Político carioca vindo da Bahia, dentes muito brancos, voz mansa, paletó de verão e currículo de escândalos abafados. Distribuía benesses e gonorreia com a mesma generosidade. Tinha gosto por meninas novas, quanto mais frágeis, melhor. Lola seria entregue como oferenda — não por dinheiro, mas por proteção política.
Do outro lado do salão, Diógenes observava.
Sempre
ele. O velho com os olhos gastos de tanto ler o mundo.
— “Vai ficar aí parado, menino? Ou vai sentar à mesa como homem?”
Vicente não respondeu. Andou devagar. Chegou até a mesa do pôquer.
Era a mesa central, onde se decidiam favores, alianças e traições disfarçadas de apostas.
Estavam sentados ali:
Antunes, empresário do ramo de frigoríficos, cheio de anéis, bigode engomado e hálito de whisky doze anos. Era o tipo que comprava carne podre e sorria como quem vendia milagre. General Barata, reformado mas ainda com influência sobre três batalhões. Tinha mãos inchadas, cicatrizes de quartel e um desprezo óbvio por qualquer coisa com menos de 40 anos ou sem farda. Doutor Roberto, o político — elegante, untado, escorregadio. Zé China, o croupier da casa. Um dos poucos que não falava, mas via tudo. Seus olhos puxados não denunciavam emoção alguma.
Vicente puxou a cadeira.
O general pigarreou como quem fareja insolência.
— “Esse moleque vai jogar?”
Antunes riu, grosso:
— “Isso aqui não é recreio, não.”
Roberto sorriu como cobra:
— “E ele joga com o quê? Fumaça de cigarro e sonho de poeta?”
Zé China olhou para V, aguardando um gesto.
Vicente tirou o lenço de seda vinho do pescoço. Dobrou devagar. Colocou sobre o feltro.
— “Entro com isso. Se eu perder... faço o que mandarem.”
Um silêncio mais pesado que as cortinas caiu sobre a mesa.
— “Qualquer coisa?” — o general perguntou.
— “Qualquer coisa.”
A mesa riu.Riram como homens que acham que Deus está sempre do lado deles.
Zé China embaralhou. Distribuiu as cartas.
Vicente era bom.
Muito bom.
Ganhou uma mão. Depois outra. Mil cruzeiros viraram cinco. Jogava firme, sem piscar, como bicho em emboscada. Mas eles não estavam ali pra perder.
— “Tá acabando, poeta,” disse Roberto.
— “Quem
manda brincar de gente grande?”
A mão seguinte seria a última. Foi quando a porta do salão rangeu. Entrou um homem alto, negro, com capa de linho e cartola antiga. Caminhava como se o chão fosse ritual. Seus olhos não refletiam nada.
Sem dizer uma palavra, tirou do paletó um paco — um calhamaço de notas úmidas, amarrado com elástico de bicheiro. Colocou sobre a mesa, bem na frente de Vicente.
— “Joga.”
Vicente sentiu o mundo se alinhar de novo sob os pés. Olhou
pro paco. Era dinheiro. Mas parecia mais.
Tinha cheiro
de encruzilhada.
Recebeu as cartas.
Par de valetes.
Zé China virou o flop:
Valete de ouros. Dois de espadas. Dama de copas.
Vicente agora tinha três valetes.
Uma trinca.
Forte o suficiente pra derrubar rei.
O turn: Ás de paus.
A tensão aumentava.
Nada ameaçava sua mão.
O river: Rei de ouros.
Roberto sorriu. Lento. Seguro.
Virou as cartas com desdém: Rei e Dama.
Dois pares.
Vicente virou as suas.
Trinca de valetes.
Por um segundo, só se ouviu o zumbido da lâmpada acima da mesa.
Vicente então puxou o maço, ergueu os olhos e disse:
— “Se eu ganhei…” — e o tom de voz era de faca embainhada —
“…ninguém toca nela. Nem hoje. Nem amanhã. Nem nunca.”
O salão congelou. Roberto se levantou devagar. Barata cruzou os braços. Antunes puxou um revólver do paletó — um .38 com cabo de madrepérola.
— “Tá achando que é quem, moleque?”
Vicente se levantou.
— “Sou filho do Palácio. E hoje… ele tá do meu lado.”
As luzes começaram a piscar.
Uma. Duas vezes.
Um
zumbido correu pelo teto.
Vicente olhou por cima do ombro.
O homem da cartola
gargalhava.
Riso baixo. Grave.
Cheio de confiança e mistério.
Mais um piscar.
E — escuridão.
No meio do salão, o paco ficou esquecido sobre o feltro.
Um
silêncio de cemitério tomado por veludo.
Vicente puxou Lola pela mão.
Ela hesitou.
— “Vai dar merda,” sussurrou.
— “Já deu.”
Eles correram pelos fundos.
Sem olhar pra trás.
Mas quando chegaram na porta dos fundos, Vicente parou.
Houve
uma pausa.
Um sussurro que só ele ouviu aquela voz grave:
— “Não esquece o paco.”
Ele voltou.
Pegou o calhamaço com mãos firmes.
E correu de novo.
Dessa vez, com o dinheiro do além no bolso
e o nome
do Palácio gravado no sangue.






