sexta-feira, 28 de março de 2025

Capítulo II — Parte III: A Jogada

O salão do térreo cheirava a madeira encerada, uísque caro e corpo suado. As luzes eram vermelhas, quentes como sangue fresco. Velas meio derretidas, abajures de vidro tingido, cortinas pesadas com cheiro de naftalina e pecado. Tudo ali parecia respirar junto, como um bicho de veludo prestes a engolir os incautos.

No canto, o toca-discos rangia Miles Davis num lamento de sax que soava como um pedido de desculpa feito tarde demais. A música se arrastava pelo carpete, abraçava as pernas das cadeiras, subia pelos tornozelos das putas. Era noite de jogo. Vicente estava encostado na parede, um cigarro apagado nos dedos e a camisa branca aberta no peito.

Não bebia.
Não sorria.
Só observava.


Observava como quem se prepara pra fazer história com as mãos sujas e o coração calado. Foi então que ela entrou.

Lola.

Veio de Niterói com uma mala de couro velha, um vestido que grudava demais e um olhar que parecia ter lido todos os segredos do Palácio antes mesmo de cruzar a porta. Tinha o corpo pequeno, os olhos grandes e escuros, uma voz baixa de quem fala pouco pra não tremer. Havia nela um tipo de beleza que confunde:

Você não sabe se quer proteger ou profanar. Vicente perguntou sem tirar os olhos:

— “Quem é ela?”

Bia Morena respondeu com a boca torta:

— “Nova. Mas não é pra ti, garoto. Essa veio com destino traçado.”

No Palácio, “destino traçado” queria dizer:
alguém importante já escolheu.

Dessa vez, era doutor Roberto. Político carioca vindo da Bahia, dentes muito brancos, voz mansa, paletó de verão e currículo de escândalos abafados. Distribuía benesses e gonorreia com a mesma generosidade. Tinha gosto por meninas novas, quanto mais frágeis, melhor. Lola seria entregue como oferenda — não por dinheiro, mas por proteção política.


Vicente mergulhou o rosto no copo vazio.
Sentiu o gosto da raiva.
Não era amor.
Era pior:
era posse por antecipação.

Do outro lado do salão, Diógenes observava.
Sempre ele. O velho com os olhos gastos de tanto ler o mundo.

— “Vai ficar aí parado, menino? Ou vai sentar à mesa como homem?”

Vicente não respondeu. Andou devagar. Chegou até a mesa do pôquer.

Era a mesa central, onde se decidiam favores, alianças e traições disfarçadas de apostas.

Estavam sentados ali:

Antunes, empresário do ramo de frigoríficos, cheio de anéis, bigode engomado e hálito de whisky doze anos. Era o tipo que comprava carne podre e sorria como quem vendia milagre. General Barata, reformado mas ainda com influência sobre três batalhões. Tinha mãos inchadas, cicatrizes de quartel e um desprezo óbvio por qualquer coisa com menos de 40 anos ou sem farda. Doutor Roberto, o político — elegante, untado, escorregadio. Zé China, o croupier da casa. Um dos poucos que não falava, mas via tudo. Seus olhos puxados não denunciavam emoção alguma.




Vicente puxou a cadeira.

O general pigarreou como quem fareja insolência.

— “Esse moleque vai jogar?”

Antunes riu, grosso:

— “Isso aqui não é recreio, não.”

Roberto sorriu como cobra:

— “E ele joga com o quê? Fumaça de cigarro e sonho de poeta?”

Zé China olhou para V, aguardando um gesto.

Vicente tirou o lenço de seda vinho do pescoço. Dobrou devagar. Colocou sobre o feltro.

— “Entro com isso. Se eu perder... faço o que mandarem.”

Um silêncio mais pesado que as cortinas caiu sobre a mesa.

— “Qualquer coisa?” — o general perguntou.

— “Qualquer coisa.”

A mesa riu.Riram como homens que acham que Deus está sempre do lado deles.

Zé China embaralhou. Distribuiu as cartas.

Vicente era bom.
Muito bom.

Ganhou uma mão. Depois outra. Mil cruzeiros viraram cinco. Jogava firme, sem piscar, como bicho em emboscada. Mas eles não estavam ali pra perder.

As apostas aumentaram.
Vieram os favores, os blefes perigosos, o peso do dinheiro sujo.
Vicente começou a perder.
Perdeu o lenço.
Perdeu o cigarro.
Perdeu o brilho do olho.

— “Tá acabando, poeta,” disse Roberto.
— “Quem manda brincar de gente grande?”

A mão seguinte seria a última. Foi quando a porta do salão rangeu. Entrou um homem alto, negro, com capa de linho e cartola antiga. Caminhava como se o chão fosse ritual. Seus olhos não refletiam nada.

Sem dizer uma palavra, tirou do paletó um paco — um calhamaço de notas úmidas, amarrado com elástico de bicheiro. Colocou sobre a mesa, bem na frente de Vicente.

— “Joga.”

Vicente sentiu o mundo se alinhar de novo sob os pés. Olhou pro paco. Era dinheiro. Mas parecia mais.
Tinha cheiro de encruzilhada.

Recebeu as cartas.
Par de valetes.

Zé China virou o flop:
Valete de ouros. Dois de espadas. Dama de copas.

Vicente agora tinha três valetes.
Uma trinca.
Forte o suficiente pra derrubar rei.

O turn: Ás de paus.
A tensão aumentava.
Nada ameaçava sua mão.

O river: Rei de ouros.

Roberto sorriu. Lento. Seguro.
Virou as cartas com desdém: Rei e Dama.
Dois pares.

Vicente virou as suas.
Trinca de valetes.

Por um segundo, só se ouviu o zumbido da lâmpada acima da mesa.

Vicente então puxou o maço, ergueu os olhos e disse:

“Se eu ganhei…” — e o tom de voz era de faca embainhada —
“…ninguém toca nela. Nem hoje. Nem amanhã. Nem nunca.”

O salão congelou. Roberto se levantou devagar. Barata cruzou os braços. Antunes puxou um revólver do paletó — um .38 com cabo de madrepérola.

— “Tá achando que é quem, moleque?”

Vicente se levantou.

— “Sou filho do Palácio. E hoje… ele tá do meu lado.”

As luzes começaram a piscar.
Uma. Duas vezes.
Um zumbido correu pelo teto.

Vicente olhou por cima do ombro.
O homem da cartola gargalhava.
Riso baixo. Grave.
Cheio de confiança e mistério.

Mais um piscar.
E — escuridão.

No meio do salão, o paco ficou esquecido sobre o feltro.
Um silêncio de cemitério tomado por veludo.

Vicente puxou Lola pela mão.

Ela hesitou.

— “Vai dar merda,” sussurrou.

— “Já deu.”

Eles correram pelos fundos.
Sem olhar pra trás.

Mas quando chegaram na porta dos fundos, Vicente parou.
Houve uma pausa.
Um sussurro que só ele ouviu aquela voz grave:

— “Não esquece o paco.”

Ele voltou.

Pegou o calhamaço com mãos firmes.
E correu de novo.

Dessa vez, com o dinheiro do além no bolso
e o nome do Palácio gravado no sangue.



Capítulo II – Parte II - O Velho e o Verbo

Ele apareceu numa terça-feira de garoa. Daquelas em que o céu parece estar desistindo de chover, mas não consegue parar de chorar. Trazia uma bengala torta, um terno de verão ultrapassado e olhos de quem já não esperava mais nada, mas ainda via tudo.

Chamava-se Diógenes. Mas no Palácio, ninguém ousava chamá-lo. Ele simplesmente estava.

Sentava-se sempre no mesmo sofá de couro da sala da frente — de onde se via a escadaria, metade da penumbra e um pedaço de cada história que se escrevia no andar de cima. Não bebia. Não pagava. Só pedia um café sem açúcar e deixava no ar o cheiro de outro tempo.

Era ex-cronista político. Assinava colunas que derrubavam secretários e levantavam delírios. Escreveu contra o AI-5 usando o pseudônimo “Mulher de Ministro” — e por isso quase perdeu os dedos.

Dizem que foi apaixonado por Sabrina. Daqueles amores que não tocam, não encostam, não pedem nada. Só escrevem. Escreveu sobre ela em crônicas disfarçadas, colunas mascaradas, pequenos contos que fingiam ser ficção. Sabrina aparecia como atriz, santa, militante, vampira, dançarina de cabaré, filha de seu tempo.

Mas nunca com seu nome. E talvez nunca soubesse. Ou fingisse não saber. Ou soubesse demais pra dizer qualquer coisa. Quando Vicente começou a crescer — a olhar demais, a ouvir com excesso, a parecer ela sem querer parecer — Diógenes entendeu.

O tempo tinha feito um laço. E o Palácio, como todo lugar assombrado por sua própria glória, estava pronto para um novo ciclo. Vicente seria o novo portador das palavras. O cronista sem papel. O escriba da lama e do veludo.

Tentou ensinar leitura. Trouxe livros. Mapas. Revistas velhas. Mas Vicente se perdia nas letras como quem tenta atravessar um pântano de olhos vendados. Troca letra. Engole sílaba. Cansa fácil. 

Um dia, jogou um almanque no chão com raiva. Rasgou a capa. Gritou com o velho:

— “As palavras não querem entrar, porra!”



Diógenes não respondeu. Só ficou olhando. Na semana seguinte, Vicente começou a segui-lo.

Descalço, camisa suada, olhar faminto. Ia atrás do velho pelas calçadas do centro. Parava na esquina do jornal. Esperava. Mas nunca o deixavam entrar.

— “Moleque de onde?”
— “Cadê responsável?”
— “Sai daqui, vai pedir esmola em outro canto.”

Vicente virava as costas sem abaixar a cabeça. Guardava o que via. O que ouvia. E o que não deixavam ele ver.

Numa tarde, sumiu por duas horas. Voltou com uniforme de escola particular. Camisa branca. Calça cinza. Sapato engraxado. Olhos em brasa. Ninguém perguntou de onde veio. Mas todos sabiam que não foi dado.

A história do roubo —
do menino Galego,
do banheiro do clube,
da troca de fardas e da surra futura —
essa história ainda será contada.

Por ora, o que importa é que naquele dia, Vicente cruzou a porta da redação. E entrou.

Não leu.
Ouviu.

Ficava quieto nos corredores, sentado na beirada da sala de revisão. Ouvia vozes. Códigos. Gírias de redação. Palavrões, histórias, brigas. E ali ele entendeu:

A palavra não é só escrita.
A palavra é saliva.
É ritmo.
É faca disfarçada de flor.

Aprendeu que escutar é mais letal que interromper. Que o tom importa mais que o substantivo. Que história não mora no papel. Mora na boca.

E começou a contar. Contava pras meninas enquanto elas penteavam os cabelos. Inventava diálogos na hora do banho. Imitava políticos bêbados. Fazia versos escondido no espelho do corredor. Sussurrava microcontos nos ouvidos das putas como se fossem bênçãos ou maldições.

— “A história não mora nos livros, Bia. Mora na saliva. E eu tenho muita.”

Ele não sabia, mas estava virando vulto. Deixando de ser menino. Ficando verbo.

Capitulo II - O Herdeiro das Sombras e das Luzes

O nome dele era Vicente. Mas no Palácio, ninguém se dava ao trabalho de chamá-lo assim.

Era só “V”.
Uma letra.
Um sussurro.
Um risco de faca num azulejo sujo.

Cresceu entre as colunas descascadas de mármore falso e os tapetes puídos onde se jogava baralho com a alma. Ouviu juras de amor eterno feitas com bafo de uísque e promessas de revolução que morriam sempre no dia seguinte. Era o menino que espiava por entre as frestas, que ouvia tudo, que falava pouco. Quando falava, cada palavra parecia ter passado antes por um tribunal secreto dentro dele.




Era mulato de olhos verdes. Um paradoxo que deixava os adultos desconcertados. A senzala e a sala de jantar disputando território nos seus traços. E no olhar… no olhar morava algo que ninguém sabia nomear: inteligência demais pra idade, tristeza demais pra um rosto tão jovem, e uma raiva contida que não sabia ainda se queria vingança ou fuga.

Diziam que era filho de uma das meninas do Palácio. Mas ninguém nunca soube — ou nunca quis dizer.
Uns falavam de uma prostituta que fugiu com um embaixador argentino. Outros diziam que ela tinha se matado em Paraty, num fim de tarde que cheirava a maresia e solidão. Mas a verdade, como sempre,  estava deitada em silêncio dentro de alguma das mais antigas. Bia Morena, talvez.

Às vezes ela olhava pra Vicente como quem lembra de um nome que não pode mais pronunciar. Ajeitava o lenço no pescoço, soltava um suspiro seco e mudava de assunto. Nunca disse. Mas o silêncio dela gritava como mãe que guarda segredos por instinto, não por covardia.

Vicente cresceu com três mães — nenhuma de sangue, todas de pele.

Bia era a pedra. Negra retinta, riso raro, mãos de lavadeira e peito de quilombo. Tinha a força das que nunca se renderam.Foi com ela que Vicente aprendeu a engolir a língua quando o mundo pedia sangue.
Com ela ele entendeu que olhar nos olhos é mais perigoso que sacar uma arma.

Zazá do Catete era o ar. Magricela, sempre com um lenço azul no pescoço e batom borrado pela metade do dia. Falava como se estivesse cantando um samba que ninguém mais lembrava a letra. Contava histórias de rádio, de guerra, de amor em pensões baratas. Foi ela quem ensinou Vicente a escutar o que se diz com os olhos — e o que não se diz de jeito nenhum.

Odete era o osso. Andava como professora, falava como militante e amava como só as que apanharam sabem amar. Repartia o pão e o cansaço em partes iguais. Dava bronca como quem reza.
E rezava como quem ameaça. Chorava baixinho quando via Vicente dormindo com os pés sujos e a respiração pesada.



“Menino meu não abaixa a cabeça pra branco engravatado. Nem pra general. Só pra sua mãe Iansã.”

Foi amamentado por Bia, alfabetizado por Zazá, educado com chineladas e cafunés por Odete. Cada uma deixou nele um pedaço. Mas nenhuma conseguiu impedir que ele carregasse no olhar o reflexo de outra. De uma que já não estava ali.

De Sabrina. Porque o que ninguém dizia — mas algumas sentiam — é que Vicente tinha algo dela. Não o sangue, embora talvez tivesse. Mas o brilho.

Aquela coisa que não se ensina. Aquela luz incômoda que vem de quem já nasceu com uma ferida ancestral no peito. O brilho de quem sabe sorrir pra um inimigo e fazer com que ele se sinta honrado por morrer pelas costas. O brilho de quem sabe que o mundo é um bordel com cortinas de igreja.

Vicente tinha isso. E tinha também a raiva muda dos que não sabem quem são. Uma raiva que não grita 
ela espera.

Ele sabia jogar pôquer antes de aprender a tabuada. Sabia reconhecer políticos canalhas pelo perfume e generais perigosos pela mão trêmula. Aprendeu capoeira só de ver, e aos doze já andava com uma navalha curta no bolso e um lenço de seda vinho no pescoço — como quem carrega uma bandeira de guerra amarrada na jugular.

Não era vaidade.
Era proteção.
Era disfarce.
Era mensagem.

E ali, entre corredores manchados e salas com cheiro de esperma antigo e perfume francês barato,
Vicente cresceu.

Meio filho.
Meio espião.
Inteiramente lenda em construção.

Bem-vindos ao Palácio

 Anos 80 no Rio de Janeiro.

O processo de abertura democrática a pleno vapor, e uma onda de transformações alardeava a chegada da tão sonhada Era de Aquário, que prometia libertar os corpos, dissolver os impérios e fazer do amor uma nova ordem política.

Os 80 no Rio eram como os 60 foram para o resto do mundo. Com os militares cedendo pouco a pouco e o povo indo às ruas em busca de liberdade e em busca de felicidade.

Talvez tenha sido aquela a época em que a cidade atingiu seu auge. Talvez, nesses anos de abertura, como num alvorecer de verão depois de uma noite abafada, os astros tenham favorecido aqueles que lutavam para trazer à realidade as utopias que povoavam o imaginário de jovens idealistas.

Mesmo onde a vida era feia, mesmo tão perto da boca do lixo, a esperança florescia com a chegada de uma nova era. Um novo Aeon. E é nesse Rio de Janeiro que começa a nossa história.

Sabrina era a mais famosa putinha do Rio nos anos 80.
Agradava tanto aos homens da alta sociedade que eles montaram um pequeno palacete para ela.

E lá, ela edificou seu mundo.
No palácio, ela era a rainha.



Mas o Palácio não era um bordel qualquer.Na verdade, não era um bordel de forma alguma. Era a casa de Sabrina — um grande imóvel em Laranjeiras com doze quartos bem distribuídos. 

O palácio, como ela gostava de chamar, tinha sido reformado para abrigar um cassino clandestino que funcionou por décadas. Até que, com os ventos políticos mudando, algum milico nostálgico ou endividado se lembrou do velho sobrado e o desocupou às pressas, amparado pela Lei de Segurança Nacional e o AI-5.



Depois foram quase duas décadas de portas fechadas até que o mesmo milico resolveu presentear Sabrina com o sobrado. Ela, sempre grata, soube agradar com maestria aquele velho general que, na maioria das vezes, contentava-se em se perder entre as coxas da sardenta, como um animal manso voltando ao cio.

Com o tempo, o general — já curvado pelos anos — cedeu.
Permitiu que ela recebesse visitas. Preocupado com o futuro da rapariga, fazia questão de aparecer com frequência, dando dura em qualquer um que ousasse frequentar a cama de Sabrina como se fosse uma posse pública. Parecia uma espécie de pai ciumento.

Logo, Sabrina deu abrigo a uma amiga.
Depois outra.
Até que quase uma dúzia de mulheres vivia no sobrado.

Só podiam frequentar o Palácio aqueles convidados pelas meninas — ou homens com dinheiro e posição. O jogo voltava à casa. Mas sob olhares distraídos, ninguém suspeitava da natureza exata do que se fazia ali.

Sempre havia uma viatura estacionada na porta, fazendo a segurança das meninas. E, claro, não demorou para que os próprios policiais passassem a frequentar os quartos e os salões. O tempo passou. E os patronos, aos poucos, transformaram o velho sobrado em um verdadeiro palácio.

As meninas, sob a tutela de Sabrina, mantinham-se belas e dispostas. Era recomendado que só subissem com quem realmente tivessem vontade. Nada era cobrado — desde que o garanhão fosse amigo da casa, um de seus patronos. Aquilo se tornou um clube privé. Festas eram celebradas sem que os convidados sequer soubessem que estavam em uma casa de tolerância.

Era um lugar de muita classe, o Palácio.

Sabrina era dessas pessoas que, mesmo chafurdando na lama, nunca perdem o brilho no olhar.
E como os olhos de Sabrina brilhavam... Tinha um jeito meigo de falar, ainda arrastando o falso sotaque francês que herdara de sua antiga protetora, Madame Désirée. Sabrina era baixinha, tinha cerca de um metro e sessenta. Ruiva, sardenta, com dois olhos verdes que mais pareciam pedaços de céu encravados em sua órbita.

O corpo? Delineado como o de uma adolescente. Mas era o jeito de menina sapeca e cheia de sonhos que mais atraía.

Sabrina tinha um ar leve, como quem se recusa a olhar pro lado podre da vida. E essa qualidade fazia dela um tesouro raro, entre tantas joias que esmorecem. Tanto que seus clientes — ou melhor, seus devotos — fizeram questão de contribuir com uma quantia generosa para reformar o Palácio. Naquele templo, aquela mulher era uma redoma. A esperança viva de que a rosa mais bela do Rio fosse protegida do longo inverno.

E por um tempo… foi bom.
O plano funcionou.
Mas a vida é cheia de amarguras.

Dizem que o anjo da morte se apaixonou por Sabrina também.
E a levou consigo.

Mas estou me adiantando.

Ainda vamos contar as histórias de Sabrina e do Palácio. Por ora, vamos focar em seus filhos. Como todo bordel — mesmo que esse jamais aceitasse ser chamado assim — sempre nascem os filhos das putas que ali crescem.

Mas o Palácio não era comum. Era um clube de cavalheiros. Onde o jogo era tolerado pelas autoridades — e mais que isso: era jogado por elas.

Ali se jogava pôquer, blackjack, e costuravam-se acordos que decidiam a política da cidade.  E Sabrina… Sabrina participava dessas conversas. Sabia onde se metia. Sabia barganhar. Aqueles que subestimam o poder de uma mulher em disputa… costumam sair derrotados. Foi assim que se montou o palco para os nossos personagens principais.

O Palácio, mesmo com sua rainha já consumida pelo inverno, permanece de pé.

Na mesma rua de Laranjeiras. Com filhos e filhas que mantêm sua memória acesa como um fogo antigo, alimentado por histórias que só se contam depois do segundo uísque.

Seja bem-vindo ao Cabaré Palácio (mas saiba que sair daqui é outra história)

Toda cidade tem um lugar que não aparece no mapa. Um ponto cego entre o desejo e o arrependimento. Um sobrado antigo, onde as paredes escutam mais do que confessionários e os lençóis sabem mais do que os tribunais.

Esse lugar, no Rio de Janeiro dos anos 80, era conhecido por poucos e respeitado por todos. O Palácio, uma casa sem placa, mas com história. Uma espécie de cabaré, cassino, abrigo, templo e encruzilhada.

Aqui não se vende carne.
Aqui se serve memória.




O Cabaré Palácio é um projeto de ficção, mas as verdades que sussurramos são reais demais pra quem já amou com raiva, se perdeu com gosto ou viveu com o pé fora da lei.

Vamos narrar o passado e o presente em duas vozes:
A dos anos 80, com suas meninas-luz, generais em decadência e poetas de bordel.
E a dos anos 2000, onde os filhos bastardos da utopia ainda tentam entender de onde vieram — e pra onde diabos estão indo.

Cada capítulo será um microconto, uma lasca de tempo com gosto de cigarro e promessa.
A narrativa é viva, oral, escrita a quatro mãos:
as minhas — Lumina Alcântara
e as dele — Arnold G.

Se você chegou até aqui, saiba:
o que começa como leitura pode virar vício.
E o que parece só conto… pode ser espelho.

Bem-vindo ao Palácio.
Sinta-se em casa.
Mas cuidado:
as cortinas se fecham sozinhas.

Assinado:
Arnold G. & Lumina Alcântara
Coautores do Cabaré Palácio

Capítulo II — Parte III: A Jogada

O salão do térreo cheirava a madeira encerada, uísque caro e corpo suado. As luzes eram vermelhas, quentes como sangue fresco. Velas meio de...